Oscar tão artístico! Academia ainda tem dificuldade em reconhecer sucessos “pop”

IG Gente | 22/01/2019 16:20:03

Filmes populares seguem “esnobados” e, mesmo com chance em Melhor Filme não tem diretores reconhecidos pela Academia

Não entenda mal, “Roma” é brilhante. Um filme completo, com uma narrativa encantadora, emocionante e surpreendente ao mesmo tempo. É bonito, tanto na escolha do preto e branco quanto na fotografia que Cuarón abraçou para si. Aparicio entrega tudo e mais que alguém pode imaginar de uma pessoa sem qualquer experiência prévia no cinema (e também de uma estrela com anos de carreira).

Cada uma das 10 indicações do filme são justas. Mas esse amor todo parece contraditório com o que a própria indústria tem feito com o streaming. Enquanto os grandes estúdios se engolem e tornam mais difícil a produção de filmes autorias e independentes, os streamings, liderados pela Netflix, tem visto isso como uma oportunidade de levar para a plataforma esses artistas.

A indústria cinematográfica, porém, não tem visto isso com bons olhos. A Netflix foi o assunto de Cannes nos últimos dois anos e em 2018 banida (!!!) da competição principal. Claro que é necessário apontar a importância das telas de cinema para a sétima arte no geral. Nenhum filme vai ser tão bonito e bem apreciado como sua versão no cinema.

Mas arte boa também é arte democrática e acessível. Quantos filmes “B” já assistimos e amamos, apenas para perceber que ninguém mais o reconheceu como você desejaria que fosse reconhecido? Se esse filme estivesse na Netflix, ou na Amazon, ou qualquer outro streaming, não estaria no topo da sua lista de indicações aos amigos?

Portanto, o reconhecimento de “Roma”, por mais significativo que seja, também é um aviso da Academia: “olha, estamos nomeando esse filme, mas é só pro que ele é uma grande produção artística, não por que ele é acessível”.

Veja “Nasce Uma Estrela”, por exemplo. O roteiro do filme é imperfeito, mas o que a Academia nos disse terça-feira (22) é que a direção é próxima disso. Os três atores principais do filme foram indicados por sua atuação, mas, veja só, o responsável por dirigi-los não foi.

Bradley Cooper, diretor de “Nasce Uma Estrela” está no circuito dos filmes artísticos há alguns anos. Tem em Clint Eastwood um mentor, já foi indicado outras três vezes como ator, mas de repente se tornou “pop” demais para uma vaga de melhor diretor.

Da mesma forma, “Pantera Negra” foi reconhecido em Melhor Filme. Embora a indicação seja para os produtores, o reconhecimento artístico da obra é de Ryan Coogler. Ele foi o responsável por escrever a história e reunir a equipe que eventualmente criou um mundo brilhante e cheio de referências às culturas africanas, ao mesmo tempo em que desenvolvia o que há de mais moderno e tecnológico no cinema.

Quem deu vida a isso foi a mente criativa de Ryan Coogler, mas Deus me livre reconhece-lo na categoria. “Pantera Negra”, inclusive, criou uma mini crise na Academia, que chegou a anunciar uma categoria de “Filme Popular”, só para depois voltar atrás. Por que criar essa categoria, se não para contemplar o “filme de super-herói” dos quadrinhos que não pode andar lado a lado com as outras criações originais que eles querem premiar?

As indicações ao Oscar nunca são unânimes, nem devem ser. No entanto, movimentos nos últimos anos, como o “Oscar So White”, deixam bem claro que a Academia tem preferência para um tipo muito específico de cinema, que nem sempre é reflexo da opinião “popular” (leia-se: inclusiva). Um pode argumentar que a franquia “Velozes e Furiosos” é popular – e também muito ruim – mas nem sempre falta de qualidade e alta bilheteria andam acompanhados um do outro.

O Oscar ainda precisa evoluir muito no que diz respeito à diversidade, também em reconhecer que sucessos comerciais não tiram ou diminuem o mérito de grandes filmes. Quais são os filmes ficarão na história e quais serão esquecidos em alguns anos? Grandes bilheterias também são feitas de filmes memoráveis.

A Academia já reconheceu isso no passado, como por exemplo em “Senhor dos Anéis”, mas no geral, é preciso muito para chegar a esse nível (olá “Cavaleiro das Trevas” esnobado). A presença de “Pantera Negra”, “Nasce Uma Estrela” e “Bohemian Rhapsody” já mostra uma inclinação a atentar para a popularidade de filmes, mas a exclusão de “Podres de Ricos”, sucesso de crítica e bilheteria nos EUA, deixam evidente que ainda há um longo caminho a seguir – ainda mais quando o filme foi reconhecido em outras áreas da indústria, como o Globo de Ouro, SAG Awards e a Associação de Produtores.

No final das contas, essas premiações são resultados da ótima safra de filmes do ano. E por que não aumentar a popularidade desses filmes? “Moonlight” foi parar na Netflix no Brasil depois de vencer o Oscar e possibilitou que muita gente que não pagaria o alto preço do ingresso para vê-lo no cinema o visse em casa. Ser popular é expandir os horizontes, e a Academia precisa expandir os seus.

Fonte: IG Gente