Oscar adota viés mais progressista com escolhas de 2019

IG Gente | 22/01/2019 16:50:03

Balizas para aferir os melhores filmes do ano estão mais dilatadas, mas reconhecimento a produções tão distintas como "Nasce uma Estrela", "Roma", "A Favorita" e "Pantera Negra" demonstra que Academia está no caminho certo. Leia análise das indicações ao Oscar 2019 a seguir

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou sua lista anual de melhores produções do ano e, como de hábito, apresentou surpresas e causou espantos com a inevitável lista dos esnobados do Oscar.

O que mais chama a atenção na lista de indicados na 91ª edição do Oscar é sua vocação globalizante e simbólica. O primeiro aspecto tácito é o reconhecimento pela Academia da Netflix como produtora de cinema de verdade. “Roma” recebeu uma atenção incomum para um filme tão artístico e tão fora da curva, ainda que impulsionado por uma milionária campanha publicitária.

A gigante do streaming recebeu 15 indicações ao Oscar. Além das dez nomeações para o filme de Alfonso Cuarón, e de mais três para “A Balada de Buster Scruggs”, a empresa amealhou duas por documentários em curta-metragem. Apenas a Fox Searchlight, especialista em filmes artísticos, obteve mais indicações em 2019. Foram 20 no total para produções como “A Favorita”, “Poderia me Perdoar?” e “Ilha dos Cachorros”.

A adesão a “Roma” importa porque muda o paradigma da indústria e abre um leque de novas e entusiasmantes possibilidades para o cinema e para o streaming.

Yalizta Aparicio, por exemplo, se tornou a quarta atriz latina a ser indicada a Melhor Atriz. Na categoria de Melhor Direção temos um grego, um mexicano e um polonês indicados. Esses dados são reflexo de uma Academia cada vez mais internacionalizada que pensa o Oscar mais como um prêmio global do que americano. Para os prospectos da premiação, em termos de audiência e influência, isso é muito bem-vindo.

A tendência não é nova, e foi acentuada durante a presidência de Chery Boone Isaacs entre 2013 e 2017, mas atinge um novo patamar em 2019. Outros ineditismos, no entanto, merecem atenção. “Pantera Negra”, por exemplo, tornou-se o primeiro filme de super-herói indicado a melhor produção do ano.

O feito é importante porque a resistência da Academia com o gênero que se tornou o principal ganha-pão de Hollywood é histórico e viveu seu ápice em 2009 quando o aclamado “Batman - O Cavaleiro das Trevas” recebeu oito indicações ao prêmio, mas não figurou entre os melhores diretores e filmes do ano.

A categoria de Melhor Filme no Oscar 2019 ostenta campeões de bilheteria, produções para streaming, heróis, cinebiografias, petardos raciais, dramas raciais conciliatórios, sátiras políticas e romances que Hollywood faz cada vez menos.

Se o ecletismo da lista denota uma Academia atenta e ciosa por expressar o que de melhor o cinema contemporâneo tem a ofertar, não importando mais as plataformas de lançamento, também é reveladora de um sufrágio intenso nas hostes da instituição.

Os critérios a balizar as escolhas dos melhores do ano estão em colizão. Um filme como “Bohemian Rhapsody”,com críticas ruins e produção atribulada se escora na força do Queen e de Freddie Mercury para conseguir cinco indicações, incluindo melhor produção do ano. Já “Pantera Negra”, pela ausência em categorias importantes como roteiro, direção ou atuação, demonstra que talvez esteja ali apenas cumprindo uma cota comercial em um ano em que a maneira como a Academia se relaciona com o mainstream foi uma pauta importante.

Por outro lado, a atenção a filmes como “Roma”, “Infiltrado na Klan”, “Poderia me Perdoar?”, “Guerra Fria” e “A Favorita” demonstra um zelo especial por um cinema que precisa da força e do apelo do Oscar para se promover.

Em 2019, esse esforço inclusivo, nas duas frentes, por parte da Academia foi mais perceptível. O Oscar jamais será uníssono em suas escolhas e frequentemente estará imerso em polêmicas e demandas conjunturais, mas a disposição de refletir melhor e mais amplamente o que de melhor o cinema apresentou no ano precisa ser devidamente prestigiada.

Fonte: IG Gente