"Guava Island" defende arte como resistência e a vê como foco de transformações

Reinaldo Glioche | 17/04/2019 12:05:50

Projeto secreto de Donald Glover, também estrelado por Rihanna, vai além do (esperto) merchandising e se mostra mais um acerto de Childish Gambino

Lançado mundialmente no último sábado (13) no Amazon Prime Video após a performance de Childish Gambino no Coachella, "Guava Island" é tanto um golpe de marketing sensacional, com uma indesviável egotrip, como um manifesto político-cultural potente de um dos artistas mais intransigentes, instigantes e criativos da modernidade.

Donald Glover já disse que Childish Gambino, sua persona musical, vai acabar. Mas antes disso, o lastro que deixará na cultura pop e na música como um todo se configura irremovível. "Guava Island" é apenas mais um vestígio desse tino empreendedor de Glover, de sua inquietação artística.

O filme, que poderia ser melhor descrito como uma história de ninar (referência intradiegética), ou até mesmo um longo clipe, reverbera algumas das músicas recentes do cantor, como This is America, Feels Like Summer, Summertime Magic e a inédita Die With You. 

O longa, dirigido pelo mesmo Hiro Murai do clipe de This is America e da série "Atlanta", revisita alguns dos códigos desses trabalhos, mas fundamentalmente se inspira em "Cidade de Deus", longa brasileiro admirado tanto estética como narrativamente por Glover e Murai.

Rodado em segredo em Cuba, o filme apresenta Glover como Deni, um artista local que acredita que a música pode salvar vidas. Pelo menos o ajudou a  conquistar Kofi (Rihanna), que cresceu ouvindo histórias de sua mãe sobre a ilha, histórias com viés imperiosamente negativos.

O brilho de Doni, seu amor pela vida, pelas pessoas e a forma leve de encarar as adversidades fizeram com que Kofi se apaixonasse por ele e afastasse a ideia de partir. Mas também com que temesse eventuais enfrentamentos com Red, um magnata local que controla todos os serviços na ilha. 

Esse enfrentamento chega quando Deni promete um show em um sábado à noite para os habitantes da ilha, mas Red desgosta da ideia porque não quer que as pessoas faltem ao trabalho no domingo.

Narrado em tom fabular, sem prescendir das expressões corporais e do carisma de Glover, e com o acréscimo de uma animação envolvente, "Guava Island" encanta por mostrar o poder transformador da arte de uma maneira bastante simples e intuitiva.

Contra a opressão e o desencanto, a música pode sim ser um alento, defende Donald Glover, idealizador do projeto "Guava Island". Sim, Rihanna e Letitia Wright estão lá mais para combustão ao hype do que para qualquer outra coisa, mas é um charme danado ver Glover tentando seduzir Rihanna ao som de Feels Like Summer.

Fonte: IG Gente