Mães cuiabanas

 

Não poderia deixar de fora deste artigo a minha própria mãe, Benedita Irene, conhecida pelo apelido de Quita.  E colocá-la na linha de frente deste texto me leva a viajar no tempo. 

Mamãe, diferente desta sua filha, é uma mulher de muitas prendas na arte de cozinhar. Uma das lembranças que guardo da minha infância é o almoço de domingo. Recordo-me, sobretudo, do sabor delicioso de seus pastéis, cuja massa, frequentemente, ajudava a esticar e das empadinhas que, de tão macias, derretiam-se em nossas bocas. Nunca, em nenhum lugar, comi empadinhas iguais às que mamãe fazia.

 Somente hoje, passados tantos anos, num tempo em que já sou avó, é que entendo o segredo e o mistério da qualidade impressa nas comidas do almoço de domingo da minha família. Mamãe colocava naqueles quitutes toda a sua disposição em se doar e agradar a sua prole. Uma vez que era meio avessa ao toque, a comida era o seu afago maternal, a sua forma de demonstrar cuidado e carinho por todos nós. E tudo que é feito com dedicação expressa, no resultado final, um padrão de excelência. O amor dá um toque divino ao nosso fazer.

 Atualmente, mamãe já não faz mais as suas famosas empadinhas nem os seus pastéis, porém prepara outras coisas, sempre com qualidade única, que conquistou boa dose de fama na vizinhança da rua dos Bandeirantes, da Cuiabá de antigamente, como o seu bolo de queijo e o bolo de arroz, conhecidos e apreciados não só por nós, os seus filhos, mas pelos parentes e amigos. Não tenho os seus divinos dotes culinários. Por outro lado, herdei outras qualidades positivas da minha mãe que muito me agradam, em especial, a preciosíssima herança da vitalidade, pela qual sou muito grata.

 Enquanto escrevo, mais imagens passam diante dos meus olhos: mamãe rezando,  pedindo a Deus e aos santos proteção para a sua família, as velas acesas diariamente ao seu santo de devoção, São Benedito, que influenciou, inclusive, a escolha de meu nome – Benedita – uma promessa feita ao seu Protetor. Muitas mães são verdadeiros anjos da guarda dos seus filhos, ajudando-os a livrarem-se de muitos perigos, Dona Quita é uma das mães que cumpre esse papel de guardiã. Faz jus ao seu nome de batismo – Benedita –, cujo significado é abençoada, bendita, louvada.  

 Fica forte também em mim, particularmente, um outro traço de mamãe, além de sua honestidade, de seu dinamismo e disposição para o trabalho: a fome do outro sempre doeu em seu coração. Jamais negou um prato de boa comida a quem quer que fosse, a qualquer hora do dia ou da noite – um exemplo de humanidade que deixa aos seus  filhos, que sempre testemunharam seus gestos espontâneos de caridade, sem nenhum alarde a ninguém.

 Admiro, ainda, a sincera hospitalidade com que trata as visitas. Nenhuma delas deve ter saído da casa de mamãe sem ter tomado, pelo menos, uma xícara de café, fosse um peão da fazenda, fosse um político renomado. Nunca a vi fazendo distinção de status social na arte de bem receber.

 Sinto-me grata de ter nascido do ventre de uma mulher como a Dona Quita: íntegra, honesta, generosa e que tão bem cuidou de seus filhos. O cuidado só existe, se há amor de verdade. E seu amor de mãe foi além dos filhos que gerou em seu ventre. Sua casa foi sempre um lar, que recebeu e acolheu incondicionalmente vários membros da família.

 E sei que também foi filha exemplar. Para os seus filhos, foi e continua sendo uma mãe presente, cuidadosa e atenciosa. Fica nas profundezas do meu ser a força da sua presença e do seu cuidado.

 Sei que, no perfil de Dona Quita, retratei não só minha mãe, mas o geral da maioria das mães cuiabanas, que ofertam uma acolhida generosa à sua gente, o que faz de Cuiabá um lugar onde brota em abundância o calor humano, responsável por cativar as pessoas que a esta terra mãe chegam e daqui não querem mais sair.

 A todas as mães cuiabanas, que transmitem a rica e divina herança do cuidado e da acolhida aos seus filhos, a minha homenagem e a minha reverência.

 

Obrigada, mães.


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