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31/07/2010 - 07h31
Ataques de onças associadas ao turismo no Pantanal
Josana Sales
O Eco



Os ataques de onça-pintadanas imediações da Estação Ecológica de Taiamã, nas margens do rio Paraguai, município de Cáceres, a 215 Km de Cuiabá, não estão relacionados a possibilidade de superpopulação do felino na área. Desde o primeiro ataque ocorrido em 24 de junho de 2008, pesquisadores e técnicos ambientais do Instituto Chico Mendes(ICMbio) e do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros investigam o comportamento dos animais daquela região e o que podem estar provocando os ataques. Com uma população estável em todo o Pantanal mato-grossense e na Amazônia, os ataques possivelmente estão relacionados ao turismo desordenado na região de Cáceres que inclui a observação inadequada dos felinos e a caça , denunciada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) e que levou a prisão 14 pessoas numa operação em conjunto com a Policia Federal.

O coordenador do Programa Nacional de Controle de Conflitos entre Predadores e População Humana do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, biólogo Rogério Cunha de Paula vem avaliando os ataques desde 2008 e observa que nos dois casos há um mesmo padrão, ou seja, as pessoas estavam dentro do habitat das onças e ambos foram pegos de surpresa. No primeiro caso, pai e filho dormiam em uma barraca e foram atacados por duas onças. Alguns relatos obtidos pelos pesquisadores informaram que para fazer o acampamento os pescadores teriam atirado por alto para espantar os animais. O filho foi praticamente devorado por uma das onças. Há vinte dias, outro jovem que pescava em um barco nas margens do rio foi atacado pelas costas. Os ferimentos na cabeça foram muito graves e a vítima só foi salva porque caiu na água e os barqueiros bateram na cabeça da onça com o remo.

Cunha de Paula diz que a idéia de superpopulação é praticamente descartada, já que a onça-pintada está no topo da cadeia alimentar , é alvo de caça e tem reprodução lenta. “O que pode estar ocorrendo é que, com o desmatamento no entorno, as onças estariam se concentrando mais na área da Estação de Taiamã , bastante conservada. Outra suposição é de que a região esteja passando por mudanças no regime de pulso das águas do Pantanal o que pode estar empurrando a população de onças - que sempre foi abundante naquela área para as proximidades de Taiamã dando a falsa impressão de superpopulação”, disse.

Outro fator que está sendo considerados nas investigações do ICMbio é o uso cevas tanto no Pantanal de Cáceres como na região de Barão de Melgaço e Poconé para facilitar o avistamento de onças. Há alguns anos foram feitas denúncias quanto ao uso de iscas por um empresário estrangeiro que possui pousada na região de Porto Jofre, próximo ao Parque Estadual Estação das Águas. O site da pousada garantia o avistamento do felino e chegava a afirmar que devolveria o pagamento do turista caso não observasse a presença de uma onça. Até hoje não se conseguiu comprovar a denúncia, mas a prática de ceva é apontada por moradores e funcionários de pousadas.

O chefe do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense , localizado na confluência do Rio Paraguai com o rio Cuiabá, divisa com Mato Grosso do Sul e ao lado da Serra do Amolar, biólogo José Augusto Ferraz lembra que a presença de onças no Pantanal é comum e raramente se tem notícias de ataques a pessoas na região do parque. Trabalhamos ali há muitos anos e não existe superpopulação e nem ataques aos homens.Nem mesmo os índios que conviveram sempre com elas não só Pantanal como na Amazônia relatam esse comportamento das onças. Estamos constantemente fiscalizando o parque e não existem cevas e nem turismo de observação de onças”, conta.

Cunha de Paulo, do ICMbio, conta que desde o primeiro acidente em 2008 foram feitos vários alertas a comunidade de Cáceres quanto ao turismo de observação de onças feito de forma inadequada. “ A onça-pintada é o maior felino das Américas, atrevido e valente, não tem medo do ser humano e leva a sério a disputa de território (em média 15 hectares). Tem uma média de três filhotes por ninhada que ficam sob cuidados da fêmea por pelo menos dois anos. É muito ariscado se aproximar dela quando o filhote está por perto ou então quando estão com uma carniça. É extremamente violento, por isso é preciso manter uma distância de 20 a 30 metros. A presença cada vez maior de gente no seu habitat pode estar provocando esses ataques‘, diz.

Essa combinação de perda de medo e associação de gente com comida pode levar a onça a atacar pessoas.“ Ainda que o avistamento de uma onça na natureza possa ser a maior recompensa para um ecoturista e que o uso de iscas aumente a (tipicamente remota) chance de um encontro, a prática de usar iscas para atrair os felinos podem ter consequências desastrosas e deve ser banida”, recomenda.

O coordenador do Núcleo de Fauna do Ibama/MT, veterinário Cesar Esteves Soares afirma que não existem pesquisas que comprovem superpopulação de onças-pintada. “Taiamã sempre teve alto índice de avistamento de onças pela oferta de alimentos nas margens do rio Paraguai e o nível de conservação do local. ‘O que estamos fazendo é tentando mapear essa área e os felinos que habitam o local. Vamos responder cientificamenteque a hipótese de superpopulação é muito remota. Vamos saber o que tem induzido as onças a atacar na região de Cáceres já que não faz parte do seu comportamento natural", diz, acrescentando que o mais provável é que na tentativa de mostrar onças aos turistas, ‘estão entrando no habitat delas e se aproximando demais. As investigações estão levando em conta também as inúmeras denúncias de que ‘empresários do turismo‘, pescadores e barqueiros estariam cevando onças disponibilizando animais mortos como jacarés em determinados pontos onde elas passam. Cesar alerta ainda que o turismo precisa considerar o avistamento de onças como um prêmio, um fato inesperado , ‘mas nunca provocar sua presença. É mais seguro usar as lentes de uma máquina fotográfica ou binóculo”, afirma.

O professor de biologia da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat) de Cáceres, especialista em ecologia de mamíferos, Manuel dos Santos Filho, estudioso de onças há 20 anos, confirma as suposições de outros pesquisadores que relacionam a falta de ordenamento do turismo no Pantanal de Cáceres aos ataques. ‘Estão chegando muito próximos delas,usando vocalizadores que irritam o animal e isso eu já presenciei por aqui. Sabemos do uso de cevas, mas nunca cheguei a ver essa prática. A vocalização no período de acasalamento, irrita muito a onça. Ela é ótima nadadora e seus impulsos podem atingir até dez metros. Já soubemos de casos aqui em Cáceres e que não vieram a público de que elas pulam dentro dos barcos. É um animal muito rápido‘, informa.

A suposição de que pulso das águas no Pantanal de Cáceres pode estar concentrando a população de onças na Estação Ecológica de Taiamã foi comentada pelo biólogo e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas úmidas(INAU) inaugurado esta semana em Cuiabá, Mato Grosso, Wolfgang Junk. Ele conta que já foi comprovado que a Usina Hidrelétrica de Manso, instalada no rio Manso, município de Chapada dos Guimarâes modificou o ciclo de cheia e seca no Pantanal abaixo de Cuiabá. “ Mas seria preciso fazer medições na área de Cáceres e verificar essa hipótese. O fato é que o desmatamento no Pantanal pode estar mudando as onças de um lado para outro. Mas são hipóteses”, diz.

Segundo levantamento feito pela ONG Conservation International(CI) , 17% da cobertura vegetal original do Pantanal já foram destruídas, principalmente para a abertura de áreas de pastagem e cultivo. O impacto imediato dessa situação é a degradação do solo, o comprometimento dos processos hidrológicos que determinam os ciclos de cheia e seca, em grande parte responsáveis por toda a riqueza biológica da região, e a perda de biodiversidade, pois recursos como abrigo, alimento e locais de reprodução oferecidos pelas florestas e demais tipos de vegetação às espécies animais não estarão mais disponíveis.

 
Comentários:
abel gonzalez jr - 03/08/2010 08:24:00
O culpado maior pelos ataques das onças é o proprio governo, em razão de ter tirado os pantaneiros de suas fazendas( não dando subsidios a perca de gados nas grandes enchentes 74,94 e outras) sendo que os mesmos limpavam os campos e assim havia campim nativos para os veados, antas, capivara e outros que são a cadeia alimenticia da onça. O que vemos hoje campos refleto de pombeiros e tucunseiro que serve de esconderijo para onças.
Henrique Concone - 03/08/2010 08:05:00
Falar que a população de onças está aumentando é uma sandice, totalmente infundada. Por que a 100 anos atrás, quando haviam muito mais onças do que hoje, não havia ataque sobre o ser humano? A ideia de que o gado era a principal presa de onça na área e a redução do rebanho doméstico são as causas para os ataques de onça é completamente infundada também. As principais presas de onça-pintada são os animais silvestres, e ela predará o gado apenas ocasionalmente, ou se o manejo deste for completamente inexistente, a predação poderá ser mais intensa, mas ainda assim, o que mantém a população de onças são as presas nativas. Isto sim é fato e fundamentado em pesquisas. O rebanho bovino do Pantanal sofreu um decréscimo considerável a partir do final da década de 70, após cheias intensas que inundaram permanentemente grandes áreas de pastagens na região. Ainda assim, não se registram casos de ataque ao ser humano em nenhum outro lugar do Pantanal, a não ser no entorno da ESEC Taiamã, e de dois anos para cá. Ou seja, algo estranho e fora do normal está acontecendo lá. Por que os ataques foram lá? Por que a mesma família de pescadores está envolvida em dois dos três casos de ataque? Será que ninguém consegue entender que cevar onças é uma prática ilegal e que está fazendo com que alguns animais associem a aproximação de barcos com o recebimento de alimento? Basta ver como é feito o turismo de observação de grandes felinos em outras regiões do mundo, e será possível notar que ninguém dá comida aos animais e depois se aproxima pra tirar uma foto.
Francisco Rúbis Datsch - 02/08/2010 07:46:00
O Complexo pecuário Descalvado, limítrofe da Reserva de Taiamã, chegou abrigar 350.000 reses em seus áureos tempos. Até 220.000 quando estava à frente do negócio o lendário Luiz Esteves Pinheiro de Lacerda. Isso alimentava os felinos, que sofriam a ação implacável dos coureiros também. O boi é raro hoje, pela inviabilidade econômica e o caçador foi desarmado e hoje lá só pode ir pegar iscas e pescar. Assim virou a presa. Pois a população de onças está aumentando sim, e muito! Os técnicos é que não convivem constantemente no ponto de pesquisa, como o ribeirinho. Na região do Porto do Limão, 80 km acima, as onças antes raras, já atacam capivaras diante de pescadores. No Rio Cabaçal, mais 60 km acima, também. É possível ligar também estes ataques com outro fato novo, se pensarmos de forma macro, incluindo Poconé, Sangradouro e Rio Jauru, onde sempre houve pecuaria intensiva: Nos assentamentos do Incra na região das bordas de todo o pantanal, a caça de catetos, queixadas e pacas, é praticada sem qualquer consciência, e isso dizimou o alimento dos felinos, que hoje atacam os poucos pescadores que vão nos barcos-hotéis, pois é longe e caro pescar em Taiamã. E os catadores de iscas, como foi o caso de 2008.
 
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