Cerca de 200 km à frente daquele acidente, em Alto Araguaia, mais de 300 caminhões aguardavam no pátio da ALL para descarregar no terminal, que funciona 24 horas. Em dias de movimento ainda maior, há duas semanas, uma fila de cinco quilômetros se formou na rodovia até a entrada do terminal de Alto Araguaia, com mais de mil veículos.
"Cheguei à 1h da manhã, peguei a senha 788 às 5h45, e descarreguei às 15h", relatou o motorista Idomar Fátima da Silva, sobre o tempo que levou para se ver livre da soja e pegar a estrada, em busca de um novo carregamento.
Esperar para descarregar, no entanto, parece ser o menor dos problemas dos motoristas após uma perigosa viagem, embora o pátio da ALL seja alvo frequente de reclamações. Os caminhoneiros dizem que são obrigados, por exemplo, a pagar 2 reais pelo uso do banheiro de um boteco instalado no pátio, situação essa que, após analisada pelo Ministério Público, levou a empresa a anunciar melhorias e novos sanitários.
O perigo na estrada acaba sendo uma reclamação mais flagrante. "Se pegar um buraco desses aí, tomba. Outro dia peguei um, a minha sorte é que estava com as mãos firmes no volante", comentou Silva. "Aumentou muito, os buracos aumentam na proporção da safra", comentou o caminhoneiro, queixando-se que os reparos feitos nas rodovias não são adequados, pois logo novas crateras se abrem com o vai e vem dos veículos pesados em uma região atingida por chuvas intensas nesta temporada.
Outro problema, agravado pelas condições da rodovia, é a imprudência e as "loucuras" dos caminheiros, relataram os próprios no terminal de Alto Araguaia. "Parei pra jantar e vi um cara bêbado igual a uma égua, pedindo cerveja. Depois ele entrou no caminhão e saiu, chovendo, com o caminhão vazio, o que é mais perigoso", disse André Luiz de Paula, lembrando que muitos colegas também acabam consumindo drogas para conseguir rodar por mais tempo, em busca da "comissão". Afinal de contas, com safra recorde, não falta produto para ser transportado.