"Não pode descuidar. Descuidou, já era", ensinou o caminhoneiro Antônio Rivaldo, apontando os riscos de "puxar" soja nas estradas de Mato Grosso. "É um verdadeiro corredor da morte", continuou ele, falando quando o tráfego parou na BR-364, perto do município de Pedra Preta (MT), por causa de um acidente envolvendo um ônibus.
A BR-364 é um dos mais importantes canais de escoamento da safra de Mato Grosso, um Estado que depende das rodovias para transportar sua imensa produção agrícola, contando com terminais ferroviários apenas no sudeste do Estado, na fronteira com Goiás.
No caminho pela BR-364 até os terminais de Alto Araguaia e Alto Taquari, uma rodovia precária, com trechos quase intransitáveis e buracos pipocando em todo o percurso, a tragédia é iminente.
Perigo que cresce nesta época, quando milhares de caminhões trafegam pela estrada levando a safra recém-colhida para os portos exportadores, ou no caso da BR-364, em direção aos terminais ferroviários que recebem a carga das carretas.
"Outro dia, na saída do Araguaia, ajudei a socorrer a mulher de um colega", atestou Rivaldo, 30 anos de idade e 10 de profissão, enquanto o congestionamento de caminhões aumentava na BR.
Para se ter uma ideia do total transportado somente pela estrada, a ferrovia da ALL que parte de Mato Grosso em direção ao porto de Santos (SP) deve conduzir este ano mais de 10 milhões de toneladas (equivalente a cerca de 40 por cento da safra mato-grossense de soja e milho), volume este que passa antes pela BR-364.
A safra de soja de Mato Grosso que está sendo colhida é estimada em quase 19 milhões de toneladas, ante 18 milhões na temporada passada, segundo o Ministério da Agricultura. De acordo com produtores, até esta semana, o Estado havia colhido 77 por cento de sua produção esperada.
"Com uma safra recorde dessa, quem dera conseguíssemos atender a 100 por cento da demanda", afirmou Carlos Eduardo Monteiro de Barros, superintendente de Terminais da ALL, indicando que, apesar de investimentos recentes em equipamentos, a capacidade de atendimento ainda é insuficiente.
Desde que assumiu a concessão da malha ferroviária na região, em 2006, a ALL conseguiu reduzir o tempo de percurso do trem até o porto de Santos de 240 horas para 96 horas. Além disso, do ano passado para 2010, a capacidade de descarga de caminhões passou de 300 para 600 ao dia em Alto Araguaia.
Mesmo assim, filas quilométricas são vistas às margens da BR-364 em dias de pico de transporte.
Com reportagem adicional de Marcelo Teixeira