Em 2007, o casca-grossa carioca está trocando o quimono pela malha. Em ano de Pan-Americano em casa, a cidade do jiu jitsu e dos pit-boys dá lugar para sua versão olímpica. Esporte antigo, mas ainda embrionário por aqui, a luta greco-romana ganha cada vez mais espaço no coração do Rio de Janeiro.
Os grandes responsáveis por isso são figurinhas carimbadas da capital fluminense. "Nenhuma outra cidade do país tem tanta cultura de lutas, de artes marciais, quanto o Rio de Janeiro. Não é só o jiu jitsu, mas o vale tudo, a luta livre e a luta olímpica", diz Roberto Leitão, coordenador técnico da Confederação Brasileira de Lutas Associadas e atleta olímpico em Seul-1988 e Barcelona-1992.
Exemplos dessa cultura da luta podem ser encontrados em qualquer canto da cidade. "Quando um cara magrinho vai pra praia e cruza os braços, olhando o movimento, ninguém fala nada. Mas quando o cara é fortão, nem precisa fazer luta nenhuma, já olham e falam 'Olha lá, o lutador, tá cheio de marra'. É um preconceito", conta Antoine Jaoude, medalha de prata no Pan de Santo Domingo-2003 e único representante do Brasil nos Jogos Olímpicos de Atenas-2004.
Mas não é só no porte físico dos moradores que a cidade se remete à luta. Grande parte dos jovens da cidade desfila pelas praias ou shoppings com roupas de grifes de "fightwear" (roupa de luta), usando sungões de vale tudo, bermudas ou regatas que ficaram famosas no corpo de estrelas da porradaria. No Arpoador, a galeria River, centro das tendências jovens do Rio, por exemplo, tem lojas dedicadas a esse tipo de roupa.
"Hoje em dia, todo mundo usa marcas de fightwear. E, para falar a verdade, quem mais usa essas marcas é o pessoal que não luta. O próprio lutador não precisa disso. Está escrito na orelha (de couve-flor) e no pescoço (desenvolvido pelos treinos). É só olhar que você vê quem luta e quem não faz nada", diz Daniel Malvino, o Pirata, três vezes campeão brasileiro.
Nada mais natural, portanto, do que a cidade da luta abraçar a luta olímpica. "O sonho olímpico move mundos. E em ano de Pan, ainda mais no Brasil, todo mundo passa a olhar para a luta de uma maneira diferente. Estamos ganhando praticantes e quem luta outras artes marciais, como o jiu jitsu, também vem para o esporte e tenta a vaga na seletiva, para defender o Brasil", analisa Leitão.
Mesmo os que sabem muito pouco sobre o esporte em que se aventuram: "Aqui no Rio, as pessoas têm espírito de luta. Encaram qualquer uma. Nem sei como é que é (que se pratica luta olímpica), mas tô dentro. Aqui, os caras têm raça, querem sobreviver da luta, viver do próprio suor", completa Leitão.
A ligação entre o Rio de Janeiro e as lutas é antiga. Já nos anos 40 se organizavam lutas de vale tudo na cidade. Além disso, os maiores ícones do jiu jitsu são os Gracies, clã carioca que desenvolveu a modalidade. "Quando se fala em cultura, não são cinco ou dez anos atrás. Em 1940 já tínhamos vale tudo, em 1960 as lutas eram frequentes." Os praticantes das antigas são chamados atualmente de "pescoçudos quebra-osso".
O histórico de brigas nas ruas e o aparecimento dos pit boys, porém, é mais recente: "No Rio, há 15 anos, quando estava começando no esporte, a rivalidade entre jiu jitsu e luta livre (modalidade diferente da luta olímpica) era enorme. Era coisa de clãs, da era medieval. Os caras se encontravam na rua e era briga de verdade", conta Antoine Jaoude, de 30 anos.
"Naquela época, todo mundo brigava. Até os faixas-preta. Os caras se encontravam, e os melhores de cada lado saíam na porrada. Você crescia com a rivalidade e ouvia as histórias. Naquela época, era uma coisa de honra, de defender a sua modalidade, provar que ela era a melhor", completa Jaoude.
Nesse cenário surgiu o vale tudo. Já nos Estados Unidos, Rorion Gracie, um dos membros do clã carioca, criou o Ultimate Fighting Championship, primeiro evento de sucesso do gênero.
Mas, nesse 2007, os pit boys vão trocar a submission do jiu jitsu pelas imobilizações da luta.