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22/06/2006 - 08h59
Sob pressão, Cargill admite que vai assinar pacto contra escravidão
Iberê Thenório


     Esta terça-feira não foi um dia fácil para o presidente da Cargill no Brasil, Sérgio Barroso. Convidado pelo Instituto Ethos para ser um dos palestrantes da Conferência Internacional 2006 - Empresas e Responsabilidade Social, que começou nesta segunda-feira (19), em São Paulo, ele se viu em uma situação constrangedora durante a mesa redonda cujo tema era "Desmatamento da Amazônia - como é possível evitar?". Justamente o calcanhar de Aquiles da Cargill.
     
     Ao contrário dos colegas de mesa (como Sérgio Amoroso, do Grupo Jari-Orsa, e Maurício Reis, da Companhia Vale do Rio Doce) o empresário da soja começou a palestra sem nenhum case para apresentar. Utilizou seus 20 minutos de fala para defender o agronegócio e a utilização do transporte fluvial no Brasil (leia-se: defender o porto construído pela empresa em Santarém/PA, que corre o risco de ser embargado por falta de licença ambiental). Barroso também mostrou um mapa das plantações de soja no país, tentando mostrar que a cultura do grão praticamente não afetava esse ecossistema.
     
     No final da palestra, entre as medidas que citou para proteger a região, o presidente da Cargill ressaltou a importância de "observar" a assinatura do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, organizado pelo Instituto Ethos e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em que empresas se comprometem a manter sua cadeia produtiva longe do trabalho escravo. O detalhe é que a Cargill não havia assinado o documento.
     
     Pesquisas, com a da ONG Greenpeace, identificaram que a empresa comprava soja de fazendas que estão na "lista suja" do trabalho escravo. Organizada pelo governo federal, essa relação divulga as propriedades comprovadamante flagradas cometendo esse crime. As suas concorrentes ADM, Amaggi e Bunge também demostraram o mesmo problema em suas cadeias produtivas. A Amaggi e a Bunge assinaram o Pacto.
     
     A maior saia-justa da Cargill veio quando subiu ao púlpito Eugênio Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria, que atua junto a comunidades extrativistas da Amazônia. Ele apresentou à platéia uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, que mostrava a devastação da Amazônia causada pela soja e o pé-de-guerra instalado no Pará quando a ONG Greenpeace tentou bloquear o porto de Santarém, em protesto contra o comportamento da Cargill. Pela primeira vez na mesa redonda, o auditório lotado, com mais de mil pessoas e formado principalmente por empresários (e não por "ambientalistas xiitas"), aplaudiu em pé. Scannavino, em sua palestra, afirmou que a população da Amazônia não precisa da soja para se desenvolver e sim da floresta, da qual já sobrevive.
     
     Como Sérgio Barroso já havia avisado que sairia mais cedo, como é de praxe quando grandes empresários envolvidos em polêmicas participam de debates, Oded Grajew, mediador do evento e presidente do Conselho Deliberativo do Ethos, resolveu modificar o programa do evento. E abriu um espaço para que Barroso - cujo rosto já passava do vermelho ao roxo - pudesse responder às críticas.
     
     Três pessoas fizeram a mesma pergunta: por que a Cargill não assinou o Pacto contra o trabalho escravo? Barroso explicou que a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), da qual sua empresa faz parte, já havia assinado, mas, se fosse necessário, a Cargill também poderia assinar individualmente. Questionado após a palestra, Sérgio Barroso finalmente cedeu à pressão da sociedade civil. "Sim, nós vamos assinar o pacto."
     
     A empresa, uma das maiores de capital fechado do mundo, agora poderá ter suas atividades monitoradas. O que, é claro, não irá resolver os problemas causados pelo impacto da expansão da soja na Amazônia, da qual a gigante norte-americana é um dos atores principais. Mas já é um alento para a floresta e seus moradores.
 
 
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