Colunista » João Edisom de Souza » Redes sociais e a psicopatia

08/02/2017 - 10:59:08

Redes sociais e a psicopatia

João Edisom de Souza

Episódios recentes, como um vídeo da necropsia do cantor Cristiano Araújo, ou o vazamento dos laudos dos exames da ex-primeira-dama Marisa Letícia, os posts e frases espalhadas em redes sociais criando factoide político sobre o cadáver dela, ou mesmo os discursos dos contra e dos a favor, as conspirações do tipo “ela está viva e foi fotografada na Itália” ou “Marisa Leticia foi assassinada”, tudo isso dá a dimensão do grau de psicopatia social, ideológica e doentia que o ódio provoca. A facilidade proporcionada pelas redes sociais possibilita aos doentes (psicopatas ideológicos) inventarem e reinventarem coisas com o intento de manipular a opinião pública.

A competentíssima psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, que escreveu o livro “Mentes perigosas, o psicopata mora ao lado”, conceitua-o como: “pessoas frias, insensíveis, manipuladoras, perversas, transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais, sem consciência e desprovidas de sentimento de compaixão, culpa ou remorso”. Acontece que parte dessas pessoas não agride fisicamente, não mata e, na maioria das vezes, faz da pretensa generosidade “amiga” uma arma de manipulação.

Não respeitar a dor da perda nos casos recentes, seja do cantor Cristiano Araújo, do ministro Teori Zavascki, da ex-primeira-dama Marisa Letícia, ou simplesmente ofender pessoas famosas como Xuxa, padre Fábio de Melo, Tais Araújo, ou anônimas, como daquela menina que teve fotos montagem espalhadas na internet para denegrir sua imagem, são exemplos constantes de como convivemos com pessoas doentes, que usam o anonimato para embarcar na onda do quanto mais pessoas eu manipular, mais realizado estou.

Mas não é só em redes sociais que isso acontece. O nosso dia a dia também está recheado de pessoas que levam a vida ao sabor de vigiar, controlar e manipular, utilizando de encenações, causos e histórias, na maioria das vezes inverídicas, mas usam também os fatos para tornar pessoas suas presas e como parasitas vigiam, controlam e direcionam pensamentos e ações dos outros em nome deste “querer”, desta “amizade”, deste “cuidar”.

Segundo a pesquisadora, “estima-se que 4% da população mundial apresenta um transtorno de personalidade que afeta indistintamente homens e mulheres, pobre e ricos, etnia ou crença: a psicopatia. A maioria dos psicopatas jamais chega à violência física ou ao ato extremo do homicídio, mas nem por isso é menos ameaçadora". O prazer deles reside em apenas separar amigos uns dos outros, fazer namorado brigarem, causar discórdia entre pais e filhos, entre irmãos. Uma das características fortes e não permitir que seus próprios amigos se conversem ou se deem bem para não fragilizar seus diabólicos planos de causar dor no outro.

Mais quem são estas pessoas? De acordo com Ana Beatriz Barbosa, "eles estão por toda parte, perfeitamente disfarçados de gente comum (...). Sem dar conta, acabamos por convidá-los a entrar em nossa vida e, quase sempre, só percebemos o erro e o tamanho do engodo quando: pessoas que convivem com o mesmo começam conversar e descobrem as “falsidades” do mesmo ou eles desaparecem inesperadamente, deixando-nos exaustos, adoecidos, com uma enorme dor de cabeça, o coração destroçado e, nos piores casos, com a vida perdida".

São pessoas que se dizem seus melhores amigos, mas são super controladoras, que adoram exigir fidelidade, discrição (afetiva, emocional, ideológica), mas apenas em relação a ela, porque tudo que ela sabe de você usará em benefício de seus caprichos e o que não encontrar ainda são capazes de inventar.

Agora pegue isso tudo e coloque como ferramenta uma rede social no meio (Twitter, Whatsapp, Facebook), acrescente políticas clubistas, políticas partidárias, ideologias e dimensiona as possibilidades de alcance das manipulações de fatos e comportamentos em uma sociedade que tem ferramenta de comunicação, mas possui baixo nível de conhecimento.
Se no plano individual, tendo apenas a fofoca e a chantagem emocional, o teatrinho das lagrimas já faz um estrago enorme, separando pessoas que se amam, distanciando amigos, conflitando familiares, vigiando e manipulando pessoas, agora pense no alcance social que uma mente dessas atinge.

Para Ana Beatriz Barbosa, "a piedade e a generosidade das pessoas boas podem se transformar em uma folha de papel em branco nas mãos de um psicopata. Quando sentimos pena, estamos vulneráveis emocionalmente e é essa a maior arma que eles podem usar contra nós". E uma sociedade cristã, carente de informação, muito sensível a dor do próximo, pois é sua dor também, com baixo nível de justiça social, torna tudo isso um campo fértil para tais seres se auto realizarem.

Uma vez que a autora afirma que "os psicopatas possuem uma visão narcisista e supervalorizada de seus valores e importância. Eles se veem como o centro do universo e tudo deve girar em torno deles. Pensam e se descrevem como pessoas superiores aos outros. [...]”. Se acham sempre e se proclamam melhores que os cercam (suas presas). “Embora saibam que estão violando os direitos básicos dos outros, por escolha, reconhecem somente as suas próprias regras e leis. (...)Além disso, são extremamente hábeis em culpar as outras pessoas por seus atos, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Para eles, a culpa sempre é dos outros".

Portanto, em um país tão despolitizado como o Brasil, com baixo nível de conhecimento científico e com o acirramento do “nós contra eles”, dos Coxinhas versus Petralhas, do racismo, do sexismo, do machismo disfarçado, dos nossos corruptos versus os corruptos deles, passamos a ter um campo favorável aos psicopatas de plantão e de plantação nas redes sociais.

 

João Edison de Souza é posgrado em gerenciamento

 

COMENTÁRIOS